… Ainda hoje sentimos as batidas do coração de Guilherme… Reconstruir o seu percurso revelou uma história marcada por coincidências simbólicas, onde o número 7 surge repetidamente nos documentos desta criança exposta na Casa da Roda do Porto. Guilherme foi entregue em 20-06-1827, num dia com 7 admissões. Trazia ao pescoço, como sinal, um pendente em forma de coração (palavra com 7 letras) com o n.º 7 gravado. O seu registo encontra-se no livro de entrada n.º 87, unidade de instalação 37, da estante 17. Como tantas crianças da época, Guilherme não sobreviveu muito tempo. Desde a sua entrada até ao seu falecimento, a 07-07-1828, esteve aos cuidados da Casa da Roda durante um ano e 17 dias. Esta Informação ficou registada no livro de matrículas n.º 217. Todos estes padrões foram descobertos na procura de um documento com a temática “7”, para a 7.ª edição da International Archives Week Challenge 2026 do Conselho Internacional de Arquivos.

Para nosso júbilo, e agora de todos, esse sinal foi escolhido como capa da edição deste ano. Hoje, dia 7 de junho, de forma a dar ainda mais vida a estes documentos, partilhamos um vídeo realizado ao abrigo do Programa de Mobilidade Erasmus+ e em cooperação com a Escola Luovi, em Helsínquia, pelos alunos Leo Lappanen e Niko Leinonen. O vídeo transforma este conjunto documental num percurso visual sensível que destaca coincidências numéricas, reforça o papel dos arquivos na preservação de vidas e memórias, evidencia o poder dos documentos históricos e mostra como as “pequenas grandes” histórias iluminam o passado e continuam a tocar o nosso presente.

 

Descarregar o BOLETIM

 

programação

8 de junho

  

9 de junho

  

10 de junho

11 de junho

 

12 e 13 de junho

  

15 de junho

16 de junho

Até 31 de julho

 

Inscrições nas atividades do Arquivo Distrital do Porto

Transcrição

LIVRO DE MEMÓRIAS N.º 2

 

Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde

(PT/ADPRT/MON/CVSCVCD/011/0155, fls. 65-70v)

  

(Fl. 65)

 

Noticia do que se passou neste Reyno, depois q nelle entrarão os Francezes, e Hespanhoes

 

No Anno do Nascimento do N. Sn. Jesus Christo de Mil oito centos e sette, Governando este Reyno de Portugal como Principe Regente, o Senhor D. João por impedimento de molestia da Raynha Sua May Senhora D. Maria 1ª; filha do Senhor D. José 1º. e Mulher do Senhor D. Pedro 3º., foy prevenido o dito Senhor Principe Regente de que os Francezes e Hespanhoes pertendião entrar de assalto neste Reyno para se senhoriarem delle, e das suas Americas; e que nesta trayção entravão certo Ministro de Estado, e outros validos no Paço, e alguns Fidalgos. Esta noticia antecipada, que se reputava mentiroza, veio depois a realizar-se por avizo de huma Fragata Ingleza, que entrou em Lisboa, cujo Commandante foy buscar o Principe, e lhe testemunhou de huma maneira tão evidente a inconfidencia, e a trayção, que lhe estava eminente, que o moveo a sahir do Reyno; e antes de o fazer deixou huma Proclamação aos seus Vassalos, em 26 de Novembro do dito anno pela qual lhes fazia saber, com muita ternura, e Amor Paternal, os motivos que o fazião partir para o Ryo de Janeiro até a Paz geral; nomeando huma Deputação de Ministros, que na sua auzencia regessem o Reyno, sendo Presidente o Marquez d’Abrantes.

 

No dia 30 do dito Mez de Novembro do sobredito anno entrou em Lisboa o General Junot Commandante em Chefe do Exercito Francêz com huma Tropa de Soldados, repentinamente; e como a esse tempo já o Principe se achava embarcado no Tejo, com toda a Familia Real, e muitos Fidalgos, e Povo, que o quiz acompanhar, ahy mesmo o foi procurar o dito General Junot, e com muitas promessas o quiz rezolver a tornar a vir para terra, (fl. 65v) dizendo, que de ordem de Napoleão Imperador dos Francezes o vinha proteger, e deffender este Reyno dos Inglezes; pois como tinhão sido expulsos delle, e confiscados os seus bens a Rogos, e Requiziçõens de mesmo Imperador, hera de recear, que viessem fazer-lhe algum attaque por Mar, em desaggravo de os lançarem fora. Mas o Principe, que estava instruido de que a vinda dos Francezes se dirigia contra a Sua Real Pessoa, querendo poupar o sangue dos seus Vassalos, como elle declarou na Proclamação da sua despedida, não quiz annuir aos Rogos do General Francêz, e partio no dia 3 de Dezembro do dito anno, para o Ryo de Janeiro, com a Sua Armada, deffendida por outra Ingleza, que o acompanhou na sua Viagem, a qual fellizmente concluhio com fellicidade, conhecendosse por hum Prodigio do Ceo a inopinada Rezolução com que se animou a passar o Mar, e a bonansa do tempo com que foi favorecido, na Estação do Rigoroso Inverno.

Logo depoys da Sua partida entrou o General Junot na posse, e administração deste Reyno, abolindo, e extinguindo a Autoridade da Regencia deixada pelo Principe, passando a nomear ministros de Estado, Conselheiros, Intendente Geral da Policia, e Corregedores Mores nas Provincias, todos Francezes, espalhando a sua Tropa por todo o Alemtejo, e de Lisboa até Coimbra.

 

Para a cidade do Porto veio huma grande Tropa de Soldados de pé, e de cavallo, Hespanhoes, que se forão dividindo até Valensa, debaixo da Comandancia do General em Chefe D. Francisco de Taranco, e Lhano, dizendosse com prezumpçoens evidentes, que entre a França, e a Hespanha, se tinha ajustado repartir o Reyno de Portugal, e os Brazis, de que houverão indicios muito provaveis, com amargura, e consternação dos Portuguezes, que sempre fazião dolorozas (fl. 66) Lamentaçoes pelo seu Principe. Fallesceo no Porto, o dito General Taranco, e como se tinha comportado com muita politica, honra, e humanidade, lhe fizerão exequias proprias de huma pessoa Real, e foi sepultado na Igreja dos Padres de Santo Eloy.

 

Veio outro General substituilo no Governo, que comprehendia a Provincia de Entre Douro, e Minho, até, que o General Junot declarou que o Imperador dos Francezes mandava, que o Imper digo, que este Reyno fosse todo governado, em Seu nome; e por esta Ordem, e com o Titulo de Duque de Abrantes, entrou no absoluto governo delle.

 

Mandou logo dar baixa, e extinguir todos os Regimentos Portuguezes; e tirar o Armamento a toda a Tropa Milliciana. Mandou, com graves penas, que os todos os Portuguezes entregassem as Armas de Fogo; que não uzassem de paus, e estoques; prohibio o exercicio da caça; os ajuntamentos, e a liberdade de andar de noute.

 

No primeiro de Fevereiro deste anno de Mil oito centos e oito, se publicou hum Decreto em nome do Imperador; mandando, entre outras couzas: Que a casa de Bragança nunca mais tornasse a Reynar: Que os Bens da Coroa, da Raynha, do Infantado e da dita casa de Bragança fossem sequestrados: Que os Bens dos Fidalgos, e mais pessoas que tinhão acompanhado o Principe, fossem confiscados: Que as Pratas de todas as Igrejas fossem para o Erario, exceptuando somente os Vasos Sagrados, e as Coroas, e Resplendores dos Santos: Que Portugal pagasse huma Contribuição de Guerra de quarenta Milhoens de Cruzados: Que os Mosteiros, e mais Corporaçoes Eccleziasticas pagassem trez partes do seu rendimento annual; e os Donatarios dos bens da Coroa, que (fl. 66v) que pagassem o quinto dobrado, alem de outras muitas contribuiçoens que constão do mesmo Decreto. Mandou outra Ordem para se picarem as Armas Reais, donde quer que estivessem, e tomou conta de todas as Rendas publicas do Reyno; e finalmente deu muitas providencias para nao haverem barulhos, levantamentos, e tumultos, mantendo os Povos em pacificação, e permittio Deos, que os Portuguezes se mostrassem humildes, e fizessem Liga Social com os Francezes, e Hespanhoes, dandolhes aquartelamentos, e pagando as contribuiçoens, apezar de serem excessivas.

 

Os Inglezes, estimulados destes procedimentos, bloquearão as Barras deste Reyno, com tanto aperto, que nunca mais houve Commercio; e os Navios, que vinhão do Brazil os levarão para Inglaterra, sem deixarem entrar fazendas, nem mantimentos, com grande consternação, e prejuizo de todos; porem quiz Deos, que os generos da primeira necessidade, como forão o Pão, Vinho, Azeite, e outros viveres não sobissem de preço.

 

No meio de tantas amarguras servia de lenitivo aos Portuguezes ser esta inffelicidade geral entre todas as Potencias da Europa; e sentio este Mosteiro as mesmas penalidades, como forão, entre outras, as seguintes: Entregou as Pratas da Igreja, que pezaram oito centos, e trinta Marcos, Seis onças e quatro oitavas; as quaes forão remettidas, com as mais desta vila, para Barcellos, e de lá forão para a cidade do Porto, ficando a nossa Igreja despojada de toda a sua Riqueza, esplendor, e magnificencia sem Alampadas, sem castiçaes, sem toxeiras, e sem o Alampadario grande que ornava o meio da Igreja e que fazia huma parte principal do seu brilhantismo; alem do thuribulo, e Naveta, Caldeira d’agoa benta, Galhetas, Estantes dos Missaes, frontal, e banqueta do (fl. 67) do Altar Mor, e Commungatorio, e Cruzes, que tudo se entregou por não incorrer nas penas impostas aos que occultassem alguma couza. Pagou esta Communidade trez partes do seu Rendimento annual, em trez pagamentos, importando cada hum trez contos trezentos cincoenta, e dous mil trezentos oitenta, e oito Reiz, e meio, alem do quinto duplicado, que importou nove centos vinte dous mil cento vinte, e quatro Reiz, em trez pagamentos.

 

Ficou esta Communidade na penuria de lhe não ficar de resto no prezente anno, depois de pagas as ditas contribuiçoens, mais, que para as despezas de trez, ou quatro Mezes.

Mandou a justiça picar as Armas Reaes, que se achavão sobre a Porta da entrada da Galilé; e não se picarão as do Dormitorio novo que faz frente para o Ryo, porque os Pedreiros se não quizerão expôr a perigo de vida, pela grande eminencia, e direcção, em que se achão.

 

Hera neste tempo Abadessa deste Mosteiro a Muito Reverenda Madre, e Senhora D. Maria Jozé de Bellem, e Vasconcellos da Caza da Fervensa, que soffreo todas estas oppressoens, prejuizos, amarguras, e falta de pagamentos dos Rendeiros, com muita paciencia conformidade, e Rezignação com a vontade de Deos, mostrando sempre, no meio das maiores vexaçoens, com que foy attenuada no seu Triennio, hum espirito magnanimo, confiando sempre da Divina Providencia o Socorro, e auxilio de que tanto precizava em hum Seculo, em que a maior parte do Mundo foy revolucionada. E para no futuro constar esta verdade, se fez a prezente descripção, que eu D. Luzia Barbara de S. Jozé Escrivãa do Mosteiro subscrevi e assignei.

  

  1. Luzia Barbara de S. José

 

(Fl. 67v)

 

Continuação do mais que aconteceo            

 

Estando este Reyno governado pelos Francezes, debaixo das ordens do General Junot, entrou este a tractar mal aos Hespanhoes, e a multiplicar os tributos aos Portuguezes que gemião às penúrias de hum captiveiro insopportavel, concorrendo para esta desgraça a maior parte dos Ministros, Generais, Governadores, e Officiaes de Guerra, deste Reyno, que ou por medo, ou por vis interesses se tornarão inconfidentes.

 

Os Bispos de Coimbra, e do Algarve; os Marquezes d’Abrantes pay, e filho, o irmão do Duque de Cadaval, e outros Fidalgos de Lisboa partirão, como Deputados deste Reyno, para Bayona de França, aonde se achava Napoleão, a render-lhe Vassalagem, em nome da Nasçao, e a pedir-lhe Rey, visto, que a caza de Bragança se achava abolida; levando para isso huma vergonhoza reprezentação, injurioza aos nossos Legitimos Soberanos, e odioza aos fieis Portuguezes, que para tão horrorozo sacrifício nunca derão consentimento.

 

Ao tempo, que se achavão em Bayona aqueles Deputados, aconteceo na Hespanha huma desordem entre o Rey Carlos Quarto, e seu filho o Principe Fernando, dividindosse o Povo em dous partidos, hum a favor do pay, e outro do filho, até que obrigarão àquele a ceder neste o Reyno, abdicando de si o governo, com o pretexto de molestias, que padecia. Entrou Napoleão a querer ser o medianeiro desta perturbação, e arbitro para julgar a qual dos dous pertencia reger a Coroa da Hespanha; e no entanto mandou seu cunhado Murat intitulado Principe de Berg, que viesse governar a Hespanha, tendo já feito entrar no dito Reyno mais de dozentos mil homens de Tropa, debaixo do nome de boa amizade, e protecção, para poder conseguir as (fl. 68) as traiçoens aleyvozas, que projectava, e que tinha practicado nos mais Reynos que havia conquistado, e destruido por meios injustos, e inconfidencias dos Generais que sobornou para falciarem aos seus Monarchas. Entrando o dito Murat no Governo da Hespanha, deffendido por hum grande Exercito Francêz, com quem se aquartelou em Madrid, passou Napoleão a chamar a Bayona de França, aonde se achava, a El Rey de Hespanha, sua mulher e filhos, e a toda a família Real; e todos illudidos e cegamente alucinados por aquele uzurpador aleivozo, apezar dos clamores do povo, que os não quizerão deixar passar dos lemites da Hespanha, se forão entregar como cordeiros ao Lobo devorador da humanidade, ambiciozo de dominar o Mundo inteiro.

 

Logo, que o impio Napoleão vio em Bayona toda a Familia Real da Hespanha, a mandou recolher ao centro da França separando ao Principe Fernando de seus pays, e pondo a todos em cautella, com guardas á vista, ficando sem Liberdade, e como prezos; consignandolhes certa quantia para o seu modico, e indigente tractamento, com escandalo, de todo o Mundo. Publicou hum Decreto, pelo qual declarou que toda a Familia Real da Hespanha hera inhabil para Reynar, e nomeou a seu irmão Jozé, que reynava em Napoles, para Rey da mesma Hespanha. Com estes procedimentos nunca vistos se irritarão tanto os Hespanhoes, que se levantarão em massa tomando armas contra os Francezes, com quem travarão huma guerra sanguinoza; e ao mesmo tempo se retirarão os Soldados Hespanhoes, que se achavão na Cidade do Porto, levando prezos (fl. 68v) o General e outros officiaes, e Tropa Franceza, que se achava na dita Cidade. Sabendo Junot da retirada dos Hespanhoes, e que havião levado prezos aos seus Generaes, mandava dous mil homens Francezes para guarnecerem a cidade do Porto, e matarem huma grande parte dos seus habitantes, por se não terem opposto ás prizoens feitas pelos Hespanhoes, sem se lembrar, que os Portuguezes tinhão entregado as Armas; e não podião deffendersse, nem rezistir, ainda que o quizessem fazer.

 

Ao tempo pois que os Francezes marchavam para o Porto a toda a pressa, inspirou Deos Nosso Senhor nos coraçoens dos Povos daquela cidade e outras terras deste Reyno, que se resgatassem deste infame captiveiro, escapando á morte cruel, que lhe preparava a impiedade daquela Nasção.

 

Foy nos dias 18 e 19 de Junho do dito Anno de 1808, que todo o Povo, em massa Acclamou na dita Cidade do Porto ao Principe Regente o Senhor D. João 6º, legitimo Successor desta Monarchia, e o mesmo se fez em outras Villas, e cidades das Provincias do Minho, e da Beira, arvorandosse as Bandeiras de Portugal, e renovandosse as Armas da Coroa, e da Serenissima Caza de Bragança em todas as partes, em que se tinhão amortizado: Estabeleceosse na mesma Cidade do Porto huma Regencia, denominada = Juncta Provizional do Governo Supremo = de que hera Prezidente, e Chefe o Excelentissimo Bispo da dita Cidade, a quem mesmo Povo foi procurar, e pedir que quizesse Governar em Nome do Principe Nosso Senhor, o qual de boa vontade se sacrificou a este trabalho, nomeando para Ministros e Conselheiros ao Provizor, ao Vigario Geral; ao Juiz da Coroa, e outros; e para Secretario de Estado ao Dezembargador Manoel Joaquim Lopes Negrão natural do Lugar de Azurara: e todos unidos em consumada sabedoria (fl. 69) e prudencia; amor da Patria, fidellidade ao nosso Amavelissimo Principe, e fellicidade dos Povos, entrarão no Governo deste Reyno desinteressadamente, com geral satisfação de todos. Mandarão organizar as Tropas, e augmentar o numero dellas com innumeraveis Mancebos, que de todas as Provincias se alistarão e tomarão Armas voluntariamente. Como as despezas herão muitas e faltava o Commercio, se pedia a todos os Vassalos hum donativo voluntario; e este nosso Mosteiro, apezar de ter tido muitos prejuizos, perdas e tributos, que pagou aos Francezes, deu quinze mil Cruzados.

 

Acudirão em nosso auxilio os Inglezes com dinheiro, Armas e Gente, que unida á nossa Tropa, e a alguns Hespanhoes, que também nos vierão auxiliar, formarão hum grande Exercito, que marchou para Lisboa, a fim de lançar fora os Francezes, que nella se achavão, commandados por Junot, e tiverão no Caminho varios encontros com alguma Tropa Franceza, que se tinha debandado por differentes Terras, aonde matarão aleivozamente alguns Portuguezes, e commetterão muitos sacrilegios nas Igrejas, mostrando em todas as suas acçoens, e comportamento ser huma Gente sem Religião, sem piedade, sem honra, e sem vergonha. Sahio Junot de Lisboa, e veio em distancia de nove Legoas com os seus Soldados esperar o nosso Exercito, que hia dividido em trez collumnas; e encontrandosse com huma dellas, que se compunha de Portuguezes e Inglezes, travarão combate, no qual forão desbaratados os Francezes, morrendo huns; e retirandosse outros para Lisboa, com Junot, o qual pedio Suspenção d’ Armas por trez dias, para se entregar por capitulação.

 

Entregousse finalmente o dito Junot, com toda a Tropa Franceza, aos Inglezes os quaes os fizerão prizioneiros de Guerra, e os levarão para bordo da sua Esquadra, que tinha entrado no Tejo, fazendo a todos huma rigoroza busca, na qual acharão muitos ouro, prata, e dinheiro, que tinhão saqueado neste Reyno. Logo se arvorarão em Lisboa as Bandeiras Portuguezas, fazendosse por todas as Cidades, e Villas deste Reyno Jubilozas demonstraçoens de alegria, e rendendosse a Deos Sollemnes Graças por nos haver remido de hum (fl. 69v) captiveiro tão infame; e de novamente se tornou a levantar a Regencia que o Principe tinha estabellecido antes da sua sahida, cofiando o Supremo Governo, que a necessidade, e o Povo havião erigido na Cidade do Porto, sendo o Excelentissimo Bispo desta Cidade, nomeado, e chamado para Membro da mesma Regencia, depois de ter dado as mais descididas provas de Sabidoria, prudencia, bravura, e de muitas outras Virtudes com que desempenhou o Emprego de Governador na mesma cidade, que deixou, com hum louvor immortal, e saudade dos Povos, que o respeitavão, e amavão como a Pay da Patria.

 

De todos os mais acontecimentos darão noticia circunstanciada as Historias deste Reyno; porque aqui só fizemos menção dos factos mais publicos e tocantes neste Mosteiro. E eu D. Luzia Barbara de S. Joze Escrivaã do Mosteiro, qual a sobscrevi e assignei.   

 

  1. Luzia Barbara de S. José

Escrivaã  

 

Continuação das Perseguiçoens feitas pelos Francezes

 

Quando os Francezes sahirão de Lisboa forão levados á França por Virtude da Capitulação, que fizerão com os Inglezes, e tornando a entrar na Hespanha entrarão em Portugal pela Provincia de Traz os Montes, tomando a Praça de Chaves; e daly passarão a Braga aonde chegarão no dia 20 de Março de 1809 pela manhaã, mattando, saqueando, e fazendo as maiores barbaridades, que por toda a parte praticarão.

No mesmo dia 20 de Março pelas 5 oras da tarde chegou a noticia daquele acontecimento, ficando todo o Povo espavorido e com o Receio de que viessem a esta Villa; querendo as Relligiosas deste Mosteiro escapar-se á crueldade daqueles inimigos, sahirão em Communidade acompanhadas dos Padres da Galilé, depois de ser noute, e por entre os gritos, e confuzão do Povo, que igualmente se poz em fuga, tomarão o Caminho da Cidade do Porto, que promettia (fl. 70) toda a segurança e rezistencia contra os inimigos.

No dia 21 do dito Mez chegarão á dita cidade a pe, fatigadas, e nas affliçoens de quem fogia da deshonra, e da Morte: as que herão naturaes da mesma cidade buscarão as suas familias; as outras se recolherão em humas cazas do lugar de Massarellos, e propondosse a embarcar para onde se salvassem, recolherão as Pratas e os dinheiros, que havião no cofre em hum Hiate, porem a tempestade, e a furia dos Mares o não deixarão seguir viagem.

Avezinharão-se os Francezes á dita cidade cobrindo-a de fogo, a que os seus deffensores não podião rezistir, e entrarão nella na manhaã do dia 29 do dito Mez aonde succederão as desgraças que todos sabem, e assim eles como os Portuguezes roubarão quanto se achava a bordo do dito Hiate, deixando a Communidade sem recurso de que se podesse manter. No dia antes da entrada dos Francezes tomarão as Relligiosas o destino de se debandarem, pois que unidas em comum, nem tinhão meios de subsistencia, nem aonde se acomodassem, buscando cada huma salvarsse como pudesse pelos Montes, pelas Cabanas, e por onde a Providencia lhes ofereceo refugio; passando a Madre Abadessa com algumas Relligiozas até a Cidade de Aveiro aonde se abrigou.

Os Francezes passarão do Porto a esta Villa aonde chegarão no dia 31 do dito Mez perto da noute e aonde estiverão até 2 de Mayo; mattando na sua entrada algumas pessoas; roubarão todas as cazas da Villa, de que tinhão fogido quase todos os seus habitantes. Arrombarão toda as entradas deste Mosteiro, todas as Cellas, Armarios, e Officinas, roubarão tudo quanto acharão, e auxilliarão, e permittirão, que a gente da Plebe, assim desta Villa, como das suas vezinhanças roubassem igualmente o que os Francezes não podião levar. Logo que despejarão desta Villa no dito dia 2 de Mayo, vierão para este Mosteiro a Madre D. Joanna Ludovina de Vasconcellos, e a Madre D. Maria Cazemira Ferreira Gaio, e suas irmans, a Madre Vigaria da Caza e apoz ellas se vierão seguindo outras, que se achavão em pouca distansia; ate que no dia 14 de Junho se recolheo a Madre D. Abadessa, a Madre Escrivaã, e muitas outras Relligiozas, até se completar a Communidade, em que só faltou a Madre (fl. 70v) Tereza Rita do Amor Divino, que achandosse em caza da sua familia na dita Cidade do Porto, se não deu aly por segura, e no dia da entrada dos Francezes, hindo a passar o Ryo Douro, se habateu a Ponte, e entrou no numero das desgraçadas Victimas que se afogarão naquele Ryo; preferindo a Morte ao perigo de serem sacrificadas á barbaridade dos Inimigos.

Foy no meio de tantas aflicçoens, penurias, e dolorozos acontecimentos que a Madre Abadessa passou o seu Triennio, que logo no principio foy ameaçado de infellicidade com o habatimento do preço das Rendas: Com a falencia do grande Cabedal, que administrava João Lopes Ferraz da dita Cidade do Porto: Com a perda do Pao de Navaes, que não recebeo no seu tempo: Com as contribuiçoens, que pagou para o Estado, alem das que tinhão levado os Francezes; e com outros muitos motivos, que a penalizarão; mostrando em todos os lances, que a paciencia, e a resignação com a Vontade de Deos herão as Armas mais poderozas para vencer, e triunfar das perseguiçoens com que foy attendida. E para assim constar se fez esta declaração, que eu D. Luzia Barbara de S. José Escrivaã do Mosteiro que o sobescrevi e assignei em 7 de Maio de 1810.

 

  1. Luzia Barbara de S. José

 ADP 30 anos in Mosteiro de São Bento da Vitória

  

Esta mostra documental virtual resulta da convergência de várias iniciativas que partilham propósitos comuns: celebrar a memória, reafirmar o papel fundamental dos arquivos e aproximar a comunidade dos testemunhos documentais que preservam a sua história e identidade.

  • 30 anos da instalação do Arquivo Distrital do Porto (ADP) no Mosteiro de São Bento da Vitória;

  • 30 anos da inscrição do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da UNESCO;

  • Dia Nacional dos Centros Históricos 2026 (DNCH2026);

  • Semana Internacional dos Arquivos 2026, promovida pelo Conselho Internacional dos Arquivos (ICA), subordinada ao tema: #ArquivosParaJustiça: Direitos, Memória e Futuros;

  • 2.ª edição da Festa dos Arquivos, promovida pela Direção‑Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

    

A partir dos documentos apresentados presencialmente durante as visitas guiadas do DNCH2026, convidamos o público a percorrer um espaço onde a cidade se revela através das marcas deixadas pelos sucessivos usos deste lugar.

Esta pequena mostra reúne documentos provenientes de diversos grupos de arquivos que ilustram a fundação, administração, transformação e reutilização do Mosteiro de São Bento da Vitória, bem como momentos significativos da  história institucional do Arquivo Distrital do Porto. Em conjunto, estes testemunhos documentais evidenciam como este espaço foi sendo moldado ao longo dos séculos e como o ADP continua a assegurar a preservação e o acesso à memória.

O percurso proposto atravessa diferentes épocas, desafios administrativos, adaptações arquitetónicas e práticas de gestão que marcaram este edifício. Os documentos selecionados mostram como o Mosteiro de São Bento da Vitória foi fundado, negociado, ocupado, adaptado e reutilizado, e como o ADP se integrou nessa trajetória, assumindo hoje a missão de salvaguardar a memória coletiva do distrito do Porto.

Da fundação beneditina às transformações militares, das petições régias às necessidades logísticas que atravessaram vários séculos, dos inventários às reivindicações de espaço para o arquivo, cada documento testemunha decisões que moldaram o destino deste edifício e da própria cidade. Ao reuni‑los, procuramos mostrar como a memória se constrói em camadas e como os arquivos permanecem instrumentos essenciais para a justiça, os direitos, a transparência e a construção de futuros sustentáveis.

» EDIFICAÇÃO DO MOSTEIRO

        

ALVARÁ DE D. FILIPE II SOBRE A EDIFICAÇÃO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA VITÓRIA (1601)

Valida o “… contrato entre os vereadores e os oficiais da Câmara do Porto, e o Abade e mais Religiosos de São Bento da Vitória…” para a edificação do Mosteiro. Este documento é precedido de uma petição de prorrogação do prazo para a construção do Mosteiro, e está seguido de uma provisão de confirmação do contrato que se fez com a Câmara sobre a compra das casas para edificação do Mosteiro.

PT/ADPRT/MON/CVSBVTRPRT/0001/00003 - Doc. n.º 8, fls. 60 e 60v

Fundo: Convento de São Bento da Vitória

 

       

LIVRO V DE COMPRAS E VENDAS DAS CASAS EM QUE SE FUNDOU O MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA VITÓRIA (1432-1619)

Títulos relativos a aquisições, doações, compras e dotes de casas para a fundação e construção do Mosteiro.

PT/ADPRT/MON/CVSBVTRPRT/002/0002, Índice inicial

Fundo: Convento de São Bento da Vitória

 

       

PROCURAÇÃO DO ABADE GERAL DE SÃO BENTO (1596)

Procuração passada por Frei Baltasar de Braga, abade da Ordem de São Bento, a Frei Plácido Ferreira e a Frei Basílio da Ascensão para que encetem junto do Cabido da Sé do Porto e da Câmara Municipal as diligências necessárias para a construção de um mosteiro beneditino.

PT/ADPRT/DIO/CABIDO/008/0771, fls. 342 e 342v 

Fundo: Cabido da Sé do Porto

 

   

“MEMORIAL DAS COUSAS E FASENDAS DESTA CASA E MOSTEIRO, QUE MANDOU ESCREVER O PADRE FR. DAMASO DA SYLVA (…)” (1660)

Contém a história abreviada da fundação deste Mosteiro, das respetivas capelas com subsequentes direitos e obrigações, bem como direitos de outra natureza de que usufruía o Mosteiro de São Bento da Vitória.

PT/ADPRT/MON/CVSBVTRPRT/011/0025, 1.ª fl.

Fundo: Convento de São Bento da Vitória

 

» OBRAS NO MOSTEIRO

           

CONTRATO PARA OBRA DE RETÁBULOS NO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA VITÓRIA (1755)

“Escritura de obrigação e fiança de uma obra que faz Manuel Homem Soares ao Reverendo Padre do Mosteiro de São Bento da Vitória (…) [para] seis retábulos das seis capelas da Igreja do dito Mosteiro, o retábulo da Sacristia e do Capítulo do Noviciado (…)”.

PT/ADPRT/NOT/CNPRT01/001/0289,  fls. 185, 185v e 186

Fundo: 1.º Cartório Notarial do Porto

 

» BENS DO MOSTEIRO

   

INVENTÁRIO DE PARAMENTOS E ALFAIAS DO CONVENTO DE SÃO BENTO DA VITÓRIA (1833)

“Inventário Geral de todos os objetos existentes (…)” nos conventos e mosteiros da comarca do Porto aquando da alteração do administrador da Comissão Administrativa dos Bens dos Conventos Abandonados. Este tipo de inventários foi elaborado aquando do longo processo de extinção das Ordens Religiosas (1834) e continha a descrição dos bens e respetivos valores. 

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-A/062/4815, fl. 105

Fundo: Governo Civil do Porto

 

      

ROL DAS ALFAIAS E ORNAMENTOS DO CONVENTO DE SÃO BENTO DA VITÓRIA (1833)

“(…) vários objetos e móveis à direção da Comissão Administrativa dos Bens dos Conventos Abandonados” que foram referenciados pelo Abade José Bento. Este tipo de inventários foi elaborado aquando do longo processo de extinção das Ordens Religiosas (1834) e continha a descrição dos bens.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-A/062/4814, fl. 25

Fundo: Governo Civil do Porto

 

» ALGUMAS DAS DIFERENTES UTILIZAÇÕES DO MOSTEIRO

   

PEÇA DESENHADA DO QUARTEL MILITAR DE SÃO BENTO (1961) 

O Mosteiro de São Bento da Vitória teve várias utilizações e serviu diferentes entidades ao longo dos anos. Esta planta ilustra os vários serviços e unidades distribuídos pelos diversos pisos do anterior Quartel Militar de São Bento.

PT/ADPRT/AC/RMN/03-04/0003/00022

Fundo: Região Militar do Norte, Serviço de Fortificações e Obras Militares

 

 

          

      

                 

PROCESSO DE INSTALAÇÃO DOS RECRUTAS DA COMPANHIA DE TELEGRAFISTAS DE PRAÇA (CTP) NAS INSTALAÇÕES DA 3.ª DIVISÃO DO EXÉRCITO (1924)

Ofício da Inspeção Geral das Fortificações e Obras Militares enviado ao Inspetor da 3.ª Circunscrição, sobre a viabilidade de se poderem alojar os recrutas da secção do Porto no Mosteiro de São Bento da Vitória, uma vez que era nesse local que estava instalada a Escola de Ensino Telegráfico. Contém a descrição das obras de adaptação a realizar e a respetiva peça desenhada.

PT/ADPRT/AC/RMN/03-04/0001/33010

Fundo: Região Militar do Norte, Serviço de Fortificações e Obras Militares

  

         

CARTA ENVIADA PELA 3.ª DIVISÃO MILITAR AO SEU COMANDANTE VISCONDE DA FONTE NOVA (1845)

Apelo à vistoria e “(…) prontas providências no edifício de São Bento da Vitória na parte do armazém que se acha alugado ao negociante Miguel António Malheiro, porquanto este individuo participa ter caído parte da abóbada e ameaça grande ruína (…)”.

PT/ADPRT/AC/RMN/03-04/0001/33011

Fundo: Região Militar do Norte, Serviço de Fortificações e Obras Militares

  

  

      

    

 

TRANSCRIÇÃO DO OFÍCIO ENVIADO PELO COMANDO GERAL DE ENGENHARIA 3.ª REPARTIÇÃO AO CONSELHO ADMINISTRATIVO DA 3.ª DIVISÃO MILITAR (1885)

No ofício é referido que um dos armazéns do Mosteiro, à época alugado ao comerciante José António Alves Rodrigues, devia ser entregue ao Regimento de Caçadores n.º 9, o que implicaria uma redução no valor da renda paga pelo arrendatário.

PT/ADPRT/AC/RMN/03-04/0001/33011

Fundo: Região Militar do Norte, Serviço de Fortificações e Obras Militares

 

 

            

          

         

INSTALAÇÃO DE POSTO DE VENDA DE PEIXE NO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA VITÓRIA (1957)

Projeto da Cooperativa dos Oficiais da Guarnição do Porto para instalar um posto de venda de peixe numa antiga arrecadação do Mosteiro de São Bento da Vitória. Contém a memória descritiva das obras de adaptação a realizar, o respetivo orçamento e a peça desenhada.

PT/ADPRT/AC/RMN/03-04/0001/33016

Fundo: Região Militar do Norte, Serviço de Fortificações e Obras Militares

 

» ARQUIVO DISTRITAL DO PORTO

        

CÓPIA DO OFÍCIO ENVIADO PELO DIRETOR DO ARQUIVO DISTRITAL DO PORTO AO INSPETOR-GERAL DAS BIBLIOTECAS E ARQUIVOS (1934)

O diretor Basílio Ribeiro de Sousa Leite e Vasconcelos dá conta da necessidade urgente de ampliar o espaço ocupado pelo arquivo na sua localização inicial na Praça da República, de modo a receber a documentação a incorporar. Refere ainda que a solução ideal seria a instalação do arquivo num edifício construído ou adaptado para o efeito, com condições adequadas para a guarda da documentação. A cópia do ofício enviado consta do 1.º volume do copiador de correspondência expedida (1931-1934).

PT/ADPRT/ADPORTO/AH/002/0019, correspondência expedida n.º 261

Fundo: Arquivo Distrital do Porto

 

OFÍCIO ENVIADO PELO NOTÁRIO DE PENAFIEL AO DIRETOR DO ARQUIVO DISTRITAL DO PORTO (1935)

O Notário de Penafiel comunica ao Diretor do Arquivo Distrital do Porto a impossibilidade de entregar dentro do prazo previsto os “(…) livros e documentos a que se refere o ofício de 31 de maio do corrente ano (…)”, devido à aglomeração de serviço no cartório.

PT/ADPRT/ADPORTO/AH/001/0002, correspondência recebida n.º 365

Fundo: Arquivo Distrital do Porto

 

» PRÉMIO ATRIBUÍDO AO ADP

    

           

PRÉMIO FERNANDES COSTA - Agência para a Sociedade do Conhecimento, IP (2004)

Premeia trabalhos inovadores no domínio da ciência informática ou do uso dos sistemas e tecnologias da informação, desenvolvidos em organismos da Administração Pública. Foi atribuído ao Arquivo Distrital do Porto pelo desenvolvimento do projeto "DigitArq: Produção, Conversão e Gestão de conteúdos Digitais de Arquivo”, que permitiu a disponibilização, pesquisa e consulta da sua documentação em linha.

Fundo: Arquivo Distrital do Porto

  

Ensaboarq cabecalho

Página 1 / 6

 

 

Catálogo EnsaboArq em formato PDF
capa catalogo ensaboarq

 

Origens da Indústria Saboeira no Porto

Os registos mais antigos relativos à indústria saboeira no Porto, patentes no ADP, remontam ao século XVI e encontram-se maioritariamente nos Livros das Sentenças do Cabido da Sé do Porto. Estas fontes evidenciam os conflitos recorrentes em torno da cobrança da redízima sobre o sabão que entrava na cidade, por via terrestre ou marítima, revelando a resistência de produtores e comerciantes ao pagamento de um imposto sobre uma mercadoria de grande relevância económica.

A importância do sabão explica-se pela diversidade dos seus usos. Para além do consumo doméstico, era fundamental na atividade marítima, sendo utilizado no tratamento da cordoagem dos navios, protegendo-a da água salgada. Numa cidade profundamente ligada ao mar, como o Porto, a procura deste produto era significativa.

Estas fontes permitem identificar os agentes económicos, as práticas produtivas e os circuitos de abastecimento, evidenciando a dependência de redes regionais e o enquadramento monopolista de carácter régio que estruturava esta atividade.

A extinção do monopólio do sabão, em 1857, marca uma rutura decisiva. O processo judicial de José Milhazes, detido por contrabando nesse mesmo ano e absolvido em 1863, ilustra a transição de um sistema de controlo régio para um novo enquadramento económico.

 

1 - SUBSTABELECIMENTO DE PROCURAÇÃO PARA A GESTÃO DAS SABOARIAS DE ENTRE DOURO E MINHO (1585) 

Substabelecimento feito por Francisco Tomás a Simão da Costa e a Pedro Fernandes de Viana, da procuração passada por D. Henrique de Portugal relativa à gestão do contrato das saboarias de Entre Douro e Minho. 

PT/ADPRT/NOT/CNVCD14/001/0011/00025, fl. 47v-48v. 
Fundo: Cartório Notarial de Vila do Conde 
 

 

 

2 - NOMEAÇÃO DE FEITOR DAS SABOARIAS REAIS (1577) 

Nomeação de Sebastião Moreira, pelo Infante D. Henrique, para o cargo de feitor das saboarias da cidade do Porto e de outros lugares de Entre Douro e Minho, registada no Livro das Sentenças n.º 46 (1497-1640). 

PT/ADPRT/DIO/CABIDO/008/0768, fl. 223-230v. 
Fundo: Cabido da Sé do Porto 

 

3 - SENTENÇA CÍVEL SOBRE OS ESTANCOS DO SABÃO (1699)

Sentença dada por D. Pedro II a favor do rendeiro da portagem, no âmbito de um litígio com o contratador dos estancos do sabão. A ação foi movida por Luís Mendes, contratador dos estancos de sabão, contra Manuel Pinto Pereira, rendeiro da portagem. Consta do Livro de Sentenças n.º 5 (1678-1768).. 

PT/ADPRT/DIO/CABIDO/008/0727/00001, fls. 1–8. 
Fundo: Cabido da Sé do Porto 

 

4 - APELAÇÃO CÍVEL EM PROCESSO DE CONTRABANDO DE SABÃO ESPANHOL (1857–1863)

Apelação cível relativa ao contrabando de sabão espanhol por José Milhazes, iniciada durante o período de monopólio régio e concluída após a sua extinção.

PT/ADPRT/JUD/TRPRT/143/01272, fls. 2 e 22.
Fundo: Tribunal da Relação do Porto

 
A Indústria Portuense
 

A partir da década de 70, a industrialização da cidade do Porto intensificou-se de forma significativa, impulsionada pela abundância de capitais dos “brasileiros de torna-viagem”, que favoreceram o investimento no setor industrial. A este processo associaram-se as inovações técnicas, nomeadamente a introdução da máquina a vapor e a expansão do caminho de ferro, bem como a disponibilidade de mão de obra abundante e de baixo custo resultante do êxodo rural, fatores que, em conjunto, sustentaram uma dinâmica de crescimento industrial contínuo na cidade. Nas palavras de Jorge Fernandes Alves, “com o decorrer do século, a cidade é envolvida por uma verdadeira floresta industrial nos espaços exteriores à antiga muralha, onde não se vislumbra concentração ou um princípio de ordenamento” (Alves, 2003, p. 220).

No caso das fábricas de sabão, tal como ocorria na indústria portuense deste período, tratava-se de pequenas unidades industriais, de carácter essencialmente oficinal e manufatureiro, frequentemente instaladas em barracões no quintal da residência do proprietário.

Os processos de licenciamento de indústrias que compõem a mostra documental “EnsaboARQ” nascem de um dos marcos mais significativos das preocupações higiénico-sanitárias em Portugal: a aprovação do Decreto de 27 de agosto de 1855, sobre as Manufacturas, Fabricas, Officinas e mais estabelecimentos industriaes insalubres, incommodos ou perigosos. Pela primeira vez, procurou-se categorizar os estabelecimentos industriais de acordo com a sua perigosidade para a saúde das populações. Depois de algumas revisões à legislação inicial, impôs-se o Decreto de 21 de outubro de 1863, juntamente com a tabela anexa dos estabelecimentos industriais abrangidos, respetivas categorias e inconvenientes ao nível da salubridade.

 

5 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE JOSÉ BENTO DO LAGO RODRIGUES (1871–1872)

Assinala a organização dos espaços produtivos da fábrica situada na Rua do Matadouro n.º 55, freguesia de Paranhos (Porto), assim como as respetivas confrontações.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00635, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

6 - PUBLICAÇÃO DE LICENCIAMENTO INDUSTRIAL (1873)

Anúncio publicado no Jornal da Manhã por José Bento Domingues, dando a conhecer o pedido de licença para a instalação de uma fábrica de sabão situada no quintal da casa n.º 560 da Rua do Bonjardim, freguesia de Santo Ildefonso (Porto). O anúncio, feito em cumprimento de edital da Administração do Bairro Oriental, detalha a classificação da unidade na 2.ª classe e convida eventuais opositores a apresentarem as suas reclamações no prazo de 30 dias.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00750, Recorte de Periódico
Fundo: Governo Civil do Porto

7 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO E TINTURARIA DE ANTÓNIO DA COSTA BARREIRO (1871–1872)

Representa a disposição dos espaços e equipamentos industriais da unidade industrial situada na Rua de São Roque da Lameira, freguesia de Campanhã (Porto), dedicada ao fabrico do sabão e a operações de tinturaria.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00009, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

8 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO DE SOUSA JÚLIO (1866-1867)

Representa um barracão ou armazém destinado ao fabrico de sabão situado na Rua de Santo Ildefonso, n.º 429 a 433, freguesia do Bonfim (Porto), destacando a separação entre a "casa de habitação do industrial", o quintal e o "armazém da fábrica", com as respetivas confrontações.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00619, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

9 - PLANTA E FÓLIO DA FÁBRICA DE SABÃO E SERRAÇÃO A VAPOR DE BERNARDO JOSÉ GONÇALVES (1870–1879)

Documentos extraídos do processo de licenciamento do estabelecimento industrial situado na Rua de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia, descrevendo a áreas destinadas à tanoaria e ao fabrico de sabão, detalhando o equipamento industrial; o fólio anexo identifica o compartimento assinalado com a letra “D” como zona de produção de sabão.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00648, Planta, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

10 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO A VAPOR DE FRANCISCO DA HORA (1868)

Representação da unidade industrial localizada na Rua do Bonjardim, freguesia de Santo Ildefonso (Porto). O desenho assinala as áreas destinadas à produção (caldeira e fornalha), venda (loja) e secagem, detalhando igualmente as confrontações do imóvel.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00621, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

11 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE ANTÓNIO FRANCISCO CANEDO & TEIXEIRA (1870) 

Representação da unidade industrial situada no Lugar da Bandeira, n.º 199, na freguesia de Mafamude (Vila Nova de Gaia). A planta detalha a organização funcional do espaço, compreendendo a casa das caldeiras, as zonas de corte e secagem e os armazéns e áreas de serviço.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J_D/180/00630, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

12 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO E SABONETES A VAPOR DE MANUEL JOAQUIM DA COSTA LEITE & JOAQUIM DE ABREU GUERRA (1891–1894) 

Identifica as diferentes áreas do processo produtivo da unidade industrial situada no Lugar do Regado, freguesia de Paranhos (Porto). A planta detalha os espaços como o depósito de matérias-primas, a casa das caldeiras, a zona de corte e as áreas de apoio.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00662, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

13a - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO SOARES PINTO (1879–1880) 

Desenho técnico que apresenta o corte de duas caldeiras da unidade industrial situada na Rua do Padrão, freguesia de Mafamude (Vila Nova de Gaia), destinadas ao fabrico de sabão, evidenciando a sua disposição circular e o respetivo sistema de chaminé.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00649, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 13a PT ADPRT AC GCPR T J D 180 00649

 

 

A Indústria Saboeira: Matérias-Primas
 

Os processos de licenciamento de saboarias refletem essas mudanças que, embora pontuais e nem sempre evidentes, revelam a evolução das fábricas ao longo do tempo, tornando-as mais complexas, mais bem equipadas e sujeitas a exigências técnicas e sanitárias cada vez mais rigorosas.

A partir do século XVIII, com o desenvolvimento da química, estas matérias-primas foram gradualmente substituídas por componentes industriais como ácido sulfúrico, estearina e soda artificial, desenvolvida por Nicolas Leblanc (1742-1806). Posteriormente, os estudos de Michel Eugène Chevreul (1786-1889) sobre a composição das substâncias gordas permitiram uma abordagem mais científica, melhorando a qualidade, o rendimento e a diversidade dos sabões produzidos, que passaram a abranger usos domésticos, industriais e cosméticos.

A transição do monopólio para o regime de livre iniciativa industrial (1858) não implicou uma rutura imediata na escolha das matérias-primas. As mudanças tornaram-se mais evidentes apenas no final do século XIX e início do século XX, com a introdução de novos componentes que possibilitavam a produção de sabões e sabonetes de diferentes qualidades.

Os processos de licenciamento das fábricas de sabão, à semelhança do que acontece com o maquinismo utilizado, permitem também identificar as matérias-primas utilizadas nas diferentes unidades do distrito do Porto. Estas informações surgem, com maior ou menor detalhe, na secção designada “Exposição”.

 

14 - “EXPOSIÇÃO” DA FÁBRICA DE SABÃO DE ROQUE JOSÉ MARTINES & COMPANHIA (1870) 

Memória descritiva que detalha o processo de fabrico e as diversas tipologias de sabão produzidas na unidade industrial localizada no Lugar de Fradelos, freguesia de Santo Ildefonso (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00627, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

 

15 - COMISSÃO CENTRAL PORTUGUESA PARA A EXPOSIÇÃO UNIVERSAL DE PARIS 1855 

Guia do sistema oficial de classificação dos produtos a expor na Exposição Universal de Paris, destacando a secção dedicada aos sabões, à perfumaria e aos produtos resinosos.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/B/216/00010, fl. 39
Fundo: Governo Civil do Porto

 

16 - "EXPOSIÇÃO” DA FÁBRICA A VAPOR DE SABÃO DE MANUEL FERREIRA DE ESMORIZ E JOAQUIM RODRIGUES DE MADEIRA (1868–1869) 

Memória descritiva que detalha as instalações, a maquinaria, o processo produtivo e a capacidade fabril da unidade de saboaria situada na Travessa das Antas, freguesia de Paranhos (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00623, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

 

17a - PLANTA DA FÁBRICA A VAPOR DE SABÃO DE JOSÉ IGNÁCIO FERREIRA RORIZ (1873) 

Representa a organização funcional da unidade industrial situada na marginal do rio Douro, freguesia do Bonfim. O desenho destaca as principais áreas de fabrico e a estrutura da chaminé central com os respetivos depósitos de água.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00642, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

17b - “EXPOSIÇÃO” DA FÁBRICA A VAPOR DE SABÃO DE JOSÉ IGNÁCIO FERREIRA RORIZ (1873) 

Memória descritiva que detalha o processo de fabrico e as diferentes tipologias de sabão produzidas na unidade industrial, situada na marginal do rio Douro, freguesia do Bonfim (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00642, Planta, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

 

Formas de Organização: Indústrias Complementares
 

A articulação entre diferentes atividades industriais constituiu uma estratégia estruturante no setor saboeiro oitocentista, traduzindo-se em formas de integração vertical que visavam assegurar o abastecimento de matérias-primas, reduzir custos e aumentar a eficiência produtiva. Muitos industriais combinavam, no mesmo universo empresarial, unidades dedicadas à transformação dos recursos produtivos essenciais ao fabrico de sabão.

O percurso de José Júlio Bouças ilustra esta lógica: após obter licença (1869) para instalar uma saboaria na Rua do Bonjardim, estabelece, no ano seguinte, uma fábrica de sebo, em Paranhos, garantindo o fornecimento direto de matéria-prima. De modo semelhante, José Bento do Lago Rodrigues integra uma saboaria na sua fábrica de velas, aproveitando o sebo já produzido, evidenciando práticas de reaproveitamento e racionalização produtiva.

A mesma lógica observa-se na produção de óleos, no caso de Joaquim Silvano, cuja fábrica se destinava ao tratamento de matérias-primas para a indústria saboeira, em articulação com a saboaria contígua da família.

A saboaria a vapor “Progresso”, de Domingos Alexandrino Ferreira da Silva, evidencia, por seu turno, a dependência destas cadeias produtivas de fornecimentos externos, nomeadamente a soda. A correspondência com a Companhia de Soda Portuguesa revela constrangimentos como atrasos e problemas de qualidade, que podiam comprometer a produção, demonstrando a vulnerabilidade de um setor fortemente dependente da regularidade dos circuitos de abastecimento

 

18 - AUTO DE REQUERIMENTO RELATIVO A FÁBRICA DE VELAS DE SEBO DE JOSÉ BENTO LAGO RODRIGUES (1869) 

Processo relativo ao pedido de licença para o estabelecimento de uma unidade de fabrico de velas de sebo situada na Rua do Matadouro Público, freguesia de Paranhos (Porto), numa zona atualmente integrada na área da Asprela e da VCI.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00369, Capa
Fundo: Governo Civil do Porto

 

19 - AUTOS CÍVEIS DE IMPETRAÇÃO DE LICENÇA DA FÁBRICA DE ÓLEOS COM MOTOR A VAPOR DE MARTINS IRMÃOS & OLIVEIRA (1894–1895) 

Processo relativo ao pedido de licença para o estabelecimento de uma unidade de produção de óleos situada na Viela do Aleixo, freguesia de Lordelo do Ouro (Porto). O requerimento foi subscrito pelo sócio Joaquim Silvano Filho.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00665, Capa
Fundo: Governo Civil do Porto

 

20 - CORRESPONDÊNCIA DA SABOARIA A VAPOR “PROGRESSO” (1923) 

Correspondência relativa à perda de qualidade da soda adquirida e ao impacto dessa alteração na produção de sabão.

PT/ADPRT/EMP/JA-07/003/0014, fls. 4 e 9
Fundo: Casa Bancária José Augusto Dias, Filho e Companhia, Lda.

 
 
Formas de Organização: Sociedades
 

A segunda metade do século XIX assistiu a uma crescente formalização jurídica da atividade empresarial em Portugal. A compilação de normas mercantis de 1833, posteriormente reformulada pelo Código Comercial de 1888, estabeleceu um enquadramento mais estruturado para as sociedades comerciais, incluindo formas como as sociedades em nome coletivo, em comandita e anónimas. Já no início do século XX, a introdução das sociedades por quotas veio consolidar este processo de modernização do direito societário.

Neste contexto, o setor saboeiro conheceu iniciativas de reorganização empresarial baseadas na associação de capitais e na constituição de companhias. Destaca-se a Companhia de Saboarias do Porto, fundada em 1866 sob a forma de sociedade em comandita, que reuniu vários industriais num projeto comum de concentração produtiva.

O modelo adotado assentava na integração dos capitais previamente investidos nas fábricas, convertidos em participações societárias, bem como na incorporação de matérias-primas e equipamentos segundo critérios definidos. A gestão técnica e administrativa era centralizada, sendo acompanhada por mecanismos de fiscalização interna, como a apresentação de balanços e a realização de assembleias de sócios.

Estas estruturas evidenciam uma crescente complexificação organizativa, traduzindo-se na procura de maior coordenação produtiva, controlo financeiro e eficiência na gestão industrial.

- Fábricas de Sabão: Entre Higiene e Insalubridade (antes da legenda 23)

As saboarias do século XIX eram marcadas por uma contradição evidente: embora produzissem sabão, um produto associado à higiene e à limpeza, funcionavam frequentemente em condições insalubres. A utilização de matérias-primas como óleo de peixe e, mais tarde, sebo animal gerava odores intensos, agravados pela emissão de fumos e pela produção de resíduos lamacentos, tornando esta atividade industrial altamente poluente.

De acordo com o Decreto de 21 de outubro de 1863, o licenciamento de qualquer indústria deveria ser submetido ao delegado do Conselho de Saúde do distrito, a quem competia avaliar a conveniência da concessão ou recusa da licença, de acordo com os parâmetros sanitários. As exigências impostas às saboarias foram variando ao longo do tempo, refletindo tanto a evolução do conhecimento científico como os problemas concretos associados à sua atividade.

Todavia, por mais condições que os delegados de saúde estipulassem para salvaguardar a saúde pública, as fábricas de sabão tornaram-se um foco de insalubridade. A emissão de licenças para o funcionamento destas indústrias era um processo que, frequentemente, estava na origem de tensões sociais, oposições e abaixo-assinados das populações circunvizinhas do estabelecimento, devido aos inconvenientes com o fumo, mau cheiro, despejo de resíduos lamacentos e ainda contaminação dos poços ou nascentes com águas potáveis.

 

21 - CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADE DA COMPANHIA DE SABOARIA DO PORTO (1867) 

Documento relativo às transações e acordos celebrados entre a Companhia de Saboaria do Porto e José Júlio Bouças, em dezembro de 1867.

PT/ADPRT/NOT/CNPRT04/001/4705/00269, fls. 93 e 94v
Fundo: 4.º Cartório Notarial do Porto

 21 PT ADPRT NOT CNPRT04 001 4705 00269

22 - ESCRITURA DE CONSTITUIÇÃO DA COMPANHIA DE SABOARIA DO PORTO (1866) 

Documento relativo à constituição da sociedade em comandita celebrada entre o Barão do Freixo, Joaquim Afonso Velado, João Francisco de Morais e João Correia de Sousa Montenegro.

PT/ADPRT/NOT/CNPRT04/001/4702/00250, fls. 100v e 101v
Fundo: 4.º Cartório Notarial do Porto

 

23 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO E TINTURARIA DE ANTÓNIO COSTA BARREIRO (1869–1870) 

Representação da organização da unidade industrial instalada na Rua do Paraíso, freguesia de Santo Ildefonso (Porto). O desenho detalha o poço, as caldeiras destinadas ao fabrico do sabão e tinturaria, bem como o sistema de escoamento de águas residuais para um poço, cuja construção foi determinada pelo delegado de saúde João Vieira Pinto.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00014, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 22 PT ADPRT NOT CNPRT04 001 4702 00250 101

24 - TERMO DE VISITA À FÁBRICA DE SABÃO DE JOAQUIM MARTINS DE ALMEIDA (1913) 

Documento elaborado pelo subdelegado de saúde, João Ferreira Guimarães, no âmbito do processo de licenciamento da fábrica situada no lugar do Outeiro, freguesia de Vilar do Paraíso (Vila Nova de Gaia). O parecer, que era obrigatório no processo de concessão da licença, estabelece condições destinadas à salvaguarda da salubridade pública e à redução dos impactos ambientais da atividade industrial.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00673, fls. 10v–11
Fundo: Governo Civil do Porto

 

25 - DEFESA DA FÁBRICA DE SABÃO DE JOSÉ AUGUSTO MENDES PEREIRA (1871–1873) 

Detalhe da resposta apresentada por José Augusto Mendes Pereira contra as queixas da população devido ao fumo e às águas poluentes provenientes da sua fábrica situada na Rua da Rainha, n.º 362, atual Rua Antero de Quental, freguesia de Cedofeita (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00641, fls. 13v e 28v
Fundo: Governo Civil do Porto

 

 

13b - PETIÇÃO CONTRA A FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO SOARES PINTO (1879–1880) 

Abaixo-assinado de moradores de Vila Nova de Gaia, contestando a instalação da unidade industrial situada na Rua do Padrão, freguesia de Mafamude, alegando riscos de poluição das águas.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00649, fls. 11 a 12
Fundo: Governo Civil do Porto

 

13b fl 11v13b fl 11v

 

O Problema da Contaminação das Águas

O receio da contaminação das águas — rios, nascentes ou poços particulares —, cuja qualidade era essencial à vida, à saúde e a diversas atividades humanas, constituía a principal razão invocada nas oposições às fábricas de sabão. Nesse sentido, os abaixo-assinados configuram importantes testemunhos da insalubridade e dos impactos ambientais e sanitários causados por estas unidades fabris.

O desleixo de alguns industriais, aliado ao facto de o saneamento ser praticamente inexistente, criou um ambiente insalubre em torno de um produto elevado a símbolo de limpeza e higiene.

Na grande maioria dos processos, os delegados de saúde emitiam pareceres favoráveis às licenças requeridas, limitando-se a estipular condições para atenuar os inconvenientes da fábrica em matéria de salubridade, de acordo com o disposto no Decreto de 21 de outubro de 1863. Todavia, houve casos excecionais em que as licenças para saboarias foram negadas pelo Governador Civil. Foi o caso da licença requerida por Joaquim de Abreu Guerra, a 2 de maio de 1889, para estabelecer uma “pequena fábrica de sabão” no armazém da casa n.º 14 a 18, na Rua do Amial, freguesia de Paranhos.

Num caso raro de intervenção e de oposição à concessão da licença, não por parte da população, mas por parte da Câmara Municipal do Porto, invoca-se a preocupação com a infiltração das águas sujas da fábrica no solo que “irão danificar as águas do rico manancial que o Município ali possuiu [o manancial de Arca d’Água] e que abastece grande número de fontes da cidade” (1889). A licença acabaria por ser negada pelo Governador Civil do Porto no mesmo ano.

26 - RECLAMAÇÃO CONTRA A FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO GONÇALVES CORTES (1908–1910) 

Pormenor de uma reclamação apresentada ao Governo Civil do Porto relativa aos prejuízos materiais e ambientais causados pela fábrica de sabão de Francisco Gonçalves Cortes, situada na Rua de General Torres, n.º 356, em Vila Nova de Gaia. Ao lado, um ofício da Câmara Municipal de Gaia, alerta para o risco de contaminação do “Rio Martinho”, curso de água que abastecia várias fontes públicas, devido aos resíduos provenientes da saboaria.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00676, Planta e fls. 13v e 17
Fundo: Governo Civil do Porto

 

27 - PLANTA E PARECERES SOBRE A FÁBRICA DE SABÃO DE JOAQUIM DE ABREU GUERRA (1889–1890) 

Documentos relativos à fábrica de sabão instalada num armazém situado nos n.os 14 a 18 da Rua do Amial, freguesia de Paranhos (Porto). O processo contém dois pareceres dirigidos ao Governo Civil do Porto — um da Câmara Municipal do Porto e outro da Direção das Obras Públicas — nos quais é solicitada a suspensão da licença da unidade industrial, devido ao risco de contaminação das águas do Manancial de Arca d’Água pelos resíduos produzidos pela fábrica.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00659, Planta, fls. 18 e 19
Fundo: Governo Civil do Porto

 
 

Espaços que o Tempo Lavou 

O percurso pela história das saboarias também nos permite revisitar espaços da cidade do Porto que há muito deixaram de existir na paisagem urbana portuense, como foi o caso da Rua da Biquinha.

No contexto da ameaça de uma nova epidemia de cólera na cidade do Porto, que impulsionou, na década de 1850, medidas de limpeza e remoção de imundices no espaço urbano, a zona da Biquinha foi várias vezes referida pelas autoridades administrativas e sanitárias como um grande foco de insalubridade que se impunha sanear.

Foi nesta rua que, a 29 de dezembro de 1871, Manuel Borges Landim requereu uma licença para instalar uma fábrica de sabão, na casa n.º 38, que era simultaneamente a sua habitação. Este proprietário acabaria por desistir da licença no ano seguinte, uma vez que o terreno onde se situaria a fábrica seria adquirido pela Câmara Municipal do Porto para a abertura da atual Rua Mouzinho da Silveira, que inicialmente esteve para se chamar Rua da Biquinha.

A abertura desta nova artéria, que ligava a zona ribeirinha ao centro da cidade, determinou também o encanamento definitivo do Rio da Vila, considerado um esgoto a céu aberto desde tempos medievais. Foi encanado por um aqueduto subterrâneo, parte em 1763 e depois em 1875, desaparecendo assim da paisagem urbana portuense.

Nesta mostra documental, foi possível encontrar vestígios deste Rio da Vila no processo de licenciamento de uma fábrica de sabão de Serafim Pinto Resende, a funcionar na Rua da Ponte Nova n.º 43, freguesia da Sé. Na planta desta unidade industrial, observa-se o traçado do rio, bem como o cano de esgoto da saboaria que nele desaguava.

 

28 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE SERAFIM PINTO RESENDE (1868) 

Ilustra a fábrica “Saboaria Central”, situada na Rua da Banharia, freguesia da Sé (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00620, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 28 PT ADPRT AC GCPRT J D 180 00620

29 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE MANUEL BORGES LANDIM (1871–1872) 

Apresenta a fábrica instalada na antiga Rua da Biquinha, freguesia da Sé (Porto), extinta aquando da abertura da Rua Mouzinho da Silveira, em 1875. Os fólios anexos incluem declarações favoráveis e desfavoráveis à permanência da unidade industrial naquele local.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00637, Planta, fls. 17v e 18
Fundo: Governo Civil do Porto

29 PT ADPRT C 9 13 2 621 006829 PT ADPRT C 9 13 2 621 0069

 

30 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE SERAFIM PINTO RESENDE (1866) 

Representa a fábrica que se localizava na Rua da Ponte Nova n.º 43, freguesia da Sé (Porto). Além das confrontações, é possível ver o Rio da Vila e o sistema de escoamento de águas residuais para este curso de água. Considerado um esgoto a céu aberto desde tempos medievais, o rio foi encanado definitivamente por um aqueduto subterrâneo em 1875, aquando da abertura da Rua Mouzinho da Silveira.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00618, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

 

LPPS

O sabão foi protagonista assíduo nas campanhas sobre higiene e saúde pública promovidas pela Liga Portuguesa de Profilaxia Social (LPPS) ao longo do século XX. O ADP preserva o acervo documental desta importante instituição portuense, referência na promoção e defesa da saúde e da educação higiénica da população na primeira metade do século XX.

A LPPS foi fundada na cidade do Porto, em 1924, por iniciativa de três jovens médicos: António Emídio de Magalhães, Gil da Costa e Veiga Pires.

Ao longo da primeira metade do século XX, a instituição interveio não apenas sobre os problemas de saúde pública mais prementes na cidade do Porto, como a sífilis, a tuberculose, o cancro ou a lepra, mas também se destacou no combate a problemas sociais relevantes, como a pobreza, a mendicidade, o abandono infantil, a saúde mental, os direitos laborais, entre outras áreas de intervenção.
A partir de uma perspetiva higienista, ancorada na medicina social, mas também humanitária e patriótica, a LPPS teve um destacado papel de intervenção médico-social em tempo de grandes lacunas no domínio da saúde pública em Portugal.
As questões relacionadas com a higiene e a saúde pública foram sempre centrais para a LPPS, numa época de graves carências ao nível da salubridade.
Neste âmbito, o sabão assumia uma importância acrescida, ao qual a LPPS fazia referência de forma recorrente, com o objetivo de promover um uso tão generalizado e eficaz quanto possível.
Os cartazes, com ou sem imagem, nacionais ou estrangeiros, foram também um dos veículos de comunicação adotados pela LPPS, para mostrar a importância da higiene individual.

 

 

 

Fontes Documentais para a Reconstituição de Trajetórias Familiares e Industriais 

Com base nos registos paroquiais e civis, é possível reconstituir percursos familiares ao longo de várias gerações. Estes registos, à guarda do Arquivo Distrital do Porto, constituem fontes fundamentais não só para a construção de árvores genealógicas, mas também para diversos campos da investigação histórica.

No âmbito da história da família, permitem compreender relações de parentesco, mobilidade social, padrões de casamento, transmissão de apelidos e profissões, bem como redes de sociabilidade, como a escolha de padrinhos, entre outros aspetos (Vidal, 2004, p.130). Como referia o padre Avelino de Jesus da Costa, é neles que “se têm de fundamentar, em grande parte, as monografias locais e até obras de maior amplitude e projeção” (Costa, 1979-1983, p. 541).

A par destas fontes, os livros e processos de passaportes, emitidos pelos Governos Civis de cada distrito, constituem igualmente fontes essenciais para o estudo da mobilidade geográfica das populações nos séculos XIX e XX, nomeadamente no que respeita à emigração e às migrações internas, tanto de portugueses como de estrangeiros.

Neste contexto, o setor da saboaria não constitui exceção. Tal como outros ramos industriais, identificam-se grupos familiares que se estruturaram ao longo do tempo, dando, em alguns casos, origem a empresas duradouras. Algumas destas fábricas históricas mantiveram-se em laboração até à década de 1970, como a Sociedade de Saboaria de Rego Lameiro, a Sociedade de Saboaria do Bolhão, a Ach. Brito & C.ª e a Claus & Schweder.

 

38 - PROCESSO DE LICENCIAMENTO DA FÁBRICA DE FERDINAND CLAUS (1891–1892) 

Documentação relativa ao pedido de licença para a instalação de uma unidade industrial de sabão, sabonetes e outros produtos químicos situada na Rua de Serpa Pinto, freguesia de Cedofeita (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00664, Capa
Fundo: Governo Civil do Porto

 

39 - ESCRITURA DE SOCIEDADE COMERCIAL ENTRE FERDINAND CLAUS E ACH. BRITO (1908) 

Contrato de sociedade outorgado entre Ferdinand Claus, Achiles Alves de Brito e Willy Thessen, que estabelece a propriedade exclusiva das fórmulas industriais da firma fundada a 30 de dezembro de 1908.

PT/ADPRT/NOT/CNPRT07/001/0814/01339, fls. 87–87v
Fundo: 7.º Cartório Notarial do Porto

 

40 - REGISTO DE BATISMO DE ACHILES ALVES DE BRITO (1879) 

Assento de batismo de Achiles Alves de Brito, nascido na freguesia e concelho de São Salvador de Matosinhos a 18 de novembro de 1879. O documento inclui o respetivo averbamento de falecimento, ocorrido em 1944.

PT/ADPRT/PRQ/PMTS06/001/0048, fl. 61v, Assento n.º 120
Fundo: Paróquia de Matosinhos

 

41 - TERMO DE IDENTIDADE E RESIDÊNCIA DE ACHILES ALVES DE BRITO 

Documento administrativo integrante do processo de pedido de passaporte para deslocação a Espanha, lavrado no Governo Civil do Porto em 8 de agosto de 1919.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/JE/099/0501, Processo de Passaporte n.º 1761, livro n.º 3421
Fundo: Governo Civil do Porto

41 PT ADPRT AC GCPRT J E 099 0501

SCROLL TO TOP