Ensaboarq cabecalho

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Catálogo EnsaboArq em formato PDF

 

Origens da Indústria Saboeira no Porto

Os registos mais antigos relativos à indústria saboeira no Porto, patentes no ADP, remontam ao século XVI e encontram-se maioritariamente nos Livros das Sentenças do Cabido da Sé do Porto. Estas fontes evidenciam os conflitos recorrentes em torno da cobrança da redízima sobre o sabão que entrava na cidade, por via terrestre ou marítima, revelando a resistência de produtores e comerciantes ao pagamento de um imposto sobre uma mercadoria de grande relevância económica.

A importância do sabão explica-se pela diversidade dos seus usos. Para além do consumo doméstico, era fundamental na atividade marítima, sendo utilizado no tratamento da cordoagem dos navios, protegendo-a da água salgada. Numa cidade profundamente ligada ao mar, como o Porto, a procura deste produto era significativa.

Estas fontes permitem identificar os agentes económicos, as práticas produtivas e os circuitos de abastecimento, evidenciando a dependência de redes regionais e o enquadramento monopolista de carácter régio que estruturava esta atividade.

A extinção do monopólio do sabão, em 1857, marca uma rutura decisiva. O processo judicial de José Milhazes, detido por contrabando nesse mesmo ano e absolvido em 1863, ilustra a transição de um sistema de controlo régio para um novo enquadramento económico.

 

1 - SUBSTABELECIMENTO DE PROCURAÇÃO PARA A GESTÃO DAS SABOARIAS DE ENTRE DOURO E MINHO (1585) 

Substabelecimento feito por Francisco Tomás a Simão da Costa e a Pedro Fernandes de Viana, da procuração passada por D. Henrique de Portugal relativa à gestão do contrato das saboarias de Entre Douro e Minho. 

PT/ADPRT/NOT/CNVCD14/001/0011/00025, fl. 47v-48v. 
Fundo: Cartório Notarial de Vila do Conde 
 

 

 

2 - NOMEAÇÃO DE FEITOR DAS SABOARIAS REAIS (1577) 

Nomeação de Sebastião Moreira, pelo Infante D. Henrique, para o cargo de feitor das saboarias da cidade do Porto e de outros lugares de Entre Douro e Minho, registada no Livro das Sentenças n.º 46 (1497-1640). 

PT/ADPRT/DIO/CABIDO/008/0768, fl. 223-230v. 
Fundo: Cabido da Sé do Porto 

 

3 - SENTENÇA CÍVEL SOBRE OS ESTANCOS DO SABÃO (1699)

Sentença dada por D. Pedro II a favor do rendeiro da portagem, no âmbito de um litígio com o contratador dos estancos do sabão. A ação foi movida por Luís Mendes, contratador dos estancos de sabão, contra Manuel Pinto Pereira, rendeiro da portagem. Consta do Livro de Sentenças n.º 5 (1678-1768).. 

PT/ADPRT/DIO/CABIDO/008/0727/00001, fls. 1–8. 
Fundo: Cabido da Sé do Porto 

 

4 - APELAÇÃO CÍVEL EM PROCESSO DE CONTRABANDO DE SABÃO ESPANHOL (1857–1863)

Apelação cível relativa ao contrabando de sabão espanhol por José Milhazes, iniciada durante o período de monopólio régio e concluída após a sua extinção.

PT/ADPRT/JUD/TRPRT/143/01272, fls. 2 e 22.
Fundo: Tribunal da Relação do Porto

 
A Indústria Portuense
 

A partir da década de 70, a industrialização da cidade do Porto intensificou-se de forma significativa, impulsionada pela abundância de capitais dos “brasileiros de torna-viagem”, que favoreceram o investimento no setor industrial. A este processo associaram-se as inovações técnicas, nomeadamente a introdução da máquina a vapor e a expansão do caminho de ferro, bem como a disponibilidade de mão de obra abundante e de baixo custo resultante do êxodo rural, fatores que, em conjunto, sustentaram uma dinâmica de crescimento industrial contínuo na cidade. Nas palavras de Jorge Fernandes Alves, “com o decorrer do século, a cidade é envolvida por uma verdadeira floresta industrial nos espaços exteriores à antiga muralha, onde não se vislumbra concentração ou um princípio de ordenamento” (Alves, 2003, p. 220).

No caso das fábricas de sabão, tal como ocorria na indústria portuense deste período, tratava-se de pequenas unidades industriais, de carácter essencialmente oficinal e manufatureiro, frequentemente instaladas em barracões no quintal da residência do proprietário.

Os processos de licenciamento de indústrias que compõem a mostra documental “EnsaboARQ” nascem de um dos marcos mais significativos das preocupações higiénico-sanitárias em Portugal: a aprovação do Decreto de 27 de agosto de 1855, sobre as Manufacturas, Fabricas, Officinas e mais estabelecimentos industriaes insalubres, incommodos ou perigosos. Pela primeira vez, procurou-se categorizar os estabelecimentos industriais de acordo com a sua perigosidade para a saúde das populações. Depois de algumas revisões à legislação inicial, impôs-se o Decreto de 21 de outubro de 1863, juntamente com a tabela anexa dos estabelecimentos industriais abrangidos, respetivas categorias e inconvenientes ao nível da salubridade.

 

5 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE JOSÉ BENTO DO LAGO RODRIGUES (1871–1872)

Assinala a organização dos espaços produtivos da fábrica situada na Rua do Matadouro n.º 55, freguesia de Paranhos (Porto), assim como as respetivas confrontações.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00635, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

6 - PUBLICAÇÃO DE LICENCIAMENTO INDUSTRIAL (1873)

Anúncio publicado no Jornal da Manhã por José Bento Domingues, dando a conhecer o pedido de licença para a instalação de uma fábrica de sabão situada no quintal da casa n.º 560 da Rua do Bonjardim, freguesia de Santo Ildefonso (Porto). O anúncio, feito em cumprimento de edital da Administração do Bairro Oriental, detalha a classificação da unidade na 2.ª classe e convida eventuais opositores a apresentarem as suas reclamações no prazo de 30 dias.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00750, Recorte de Periódico
Fundo: Governo Civil do Porto

7 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO E TINTURARIA DE ANTÓNIO DA COSTA BARREIRO (1871–1872)

Representa a disposição dos espaços e equipamentos industriais da unidade industrial situada na Rua de São Roque da Lameira, freguesia de Campanhã (Porto), dedicada ao fabrico do sabão e a operações de tinturaria.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00009, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

8 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO DE SOUSA JÚLIO (1866-1867)

Representa um barracão ou armazém destinado ao fabrico de sabão situado na Rua de Santo Ildefonso, n.º 429 a 433, freguesia do Bonfim (Porto), destacando a separação entre a "casa de habitação do industrial", o quintal e o "armazém da fábrica", com as respetivas confrontações.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00619, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

9 - PLANTA E FÓLIO DA FÁBRICA DE SABÃO E SERRAÇÃO A VAPOR DE BERNARDO JOSÉ GONÇALVES (1870–1879)

Documentos extraídos do processo de licenciamento do estabelecimento industrial situado na Rua de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia, descrevendo a áreas destinadas à tanoaria e ao fabrico de sabão, detalhando o equipamento industrial; o fólio anexo identifica o compartimento assinalado com a letra “D” como zona de produção de sabão.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00648, Planta, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

10 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO A VAPOR DE FRANCISCO DA HORA (1868)

Representação da unidade industrial localizada na Rua do Bonjardim, freguesia de Santo Ildefonso (Porto). O desenho assinala as áreas destinadas à produção (caldeira e fornalha), venda (loja) e secagem, detalhando igualmente as confrontações do imóvel.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00621, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

11 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE ANTÓNIO FRANCISCO CANEDO & TEIXEIRA (1870) 

Representação da unidade industrial situada no Lugar da Bandeira, n.º 199, na freguesia de Mafamude (Vila Nova de Gaia). A planta detalha a organização funcional do espaço, compreendendo a casa das caldeiras, as zonas de corte e secagem e os armazéns e áreas de serviço.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J_D/180/00630, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

12 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO E SABONETES A VAPOR DE MANUEL JOAQUIM DA COSTA LEITE & JOAQUIM DE ABREU GUERRA (1891–1894) 

Identifica as diferentes áreas do processo produtivo da unidade industrial situada no Lugar do Regado, freguesia de Paranhos (Porto). A planta detalha os espaços como o depósito de matérias-primas, a casa das caldeiras, a zona de corte e as áreas de apoio.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00662, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

13a - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO SOARES PINTO (1879–1880) 

Desenho técnico que apresenta o corte de duas caldeiras da unidade industrial situada na Rua do Padrão, freguesia de Mafamude (Vila Nova de Gaia), destinadas ao fabrico de sabão, evidenciando a sua disposição circular e o respetivo sistema de chaminé.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00649, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 13a PT ADPRT AC GCPR T J D 180 00649

 

 

A Indústria Saboeira: Matérias-Primas
 

Os processos de licenciamento de saboarias refletem essas mudanças que, embora pontuais e nem sempre evidentes, revelam a evolução das fábricas ao longo do tempo, tornando-as mais complexas, mais bem equipadas e sujeitas a exigências técnicas e sanitárias cada vez mais rigorosas.

A partir do século XVIII, com o desenvolvimento da química, estas matérias-primas foram gradualmente substituídas por componentes industriais como ácido sulfúrico, estearina e soda artificial, desenvolvida por Nicolas Leblanc (1742-1806). Posteriormente, os estudos de Michel Eugène Chevreul (1786-1889) sobre a composição das substâncias gordas permitiram uma abordagem mais científica, melhorando a qualidade, o rendimento e a diversidade dos sabões produzidos, que passaram a abranger usos domésticos, industriais e cosméticos.

A transição do monopólio para o regime de livre iniciativa industrial (1858) não implicou uma rutura imediata na escolha das matérias-primas. As mudanças tornaram-se mais evidentes apenas no final do século XIX e início do século XX, com a introdução de novos componentes que possibilitavam a produção de sabões e sabonetes de diferentes qualidades.

Os processos de licenciamento das fábricas de sabão, à semelhança do que acontece com o maquinismo utilizado, permitem também identificar as matérias-primas utilizadas nas diferentes unidades do distrito do Porto. Estas informações surgem, com maior ou menor detalhe, na secção designada “Exposição”.

 

14 - “EXPOSIÇÃO” DA FÁBRICA DE SABÃO DE ROQUE JOSÉ MARTINES & COMPANHIA (1870) 

Memória descritiva que detalha o processo de fabrico e as diversas tipologias de sabão produzidas na unidade industrial localizada no Lugar de Fradelos, freguesia de Santo Ildefonso (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00627, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

 

15 - COMISSÃO CENTRAL PORTUGUESA PARA A EXPOSIÇÃO UNIVERSAL DE PARIS 1855 

Guia do sistema oficial de classificação dos produtos a expor na Exposição Universal de Paris, destacando a secção dedicada aos sabões, à perfumaria e aos produtos resinosos.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/B/216/00010, fl. 39
Fundo: Governo Civil do Porto

 

16 - "EXPOSIÇÃO” DA FÁBRICA A VAPOR DE SABÃO DE MANUEL FERREIRA DE ESMORIZ E JOAQUIM RODRIGUES DE MADEIRA (1868–1869) 

Memória descritiva que detalha as instalações, a maquinaria, o processo produtivo e a capacidade fabril da unidade de saboaria situada na Travessa das Antas, freguesia de Paranhos (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00623, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

 

17a - PLANTA DA FÁBRICA A VAPOR DE SABÃO DE JOSÉ IGNÁCIO FERREIRA RORIZ (1873) 

Representa a organização funcional da unidade industrial situada na marginal do rio Douro, freguesia do Bonfim. O desenho destaca as principais áreas de fabrico e a estrutura da chaminé central com os respetivos depósitos de água.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00642, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

17b - “EXPOSIÇÃO” DA FÁBRICA A VAPOR DE SABÃO DE JOSÉ IGNÁCIO FERREIRA RORIZ (1873) 

Memória descritiva que detalha o processo de fabrico e as diferentes tipologias de sabão produzidas na unidade industrial, situada na marginal do rio Douro, freguesia do Bonfim (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00642, Planta, fl. 4
Fundo: Governo Civil do Porto

 

Formas de Organização: Indústrias Complementares
 

A articulação entre diferentes atividades industriais constituiu uma estratégia estruturante no setor saboeiro oitocentista, traduzindo-se em formas de integração vertical que visavam assegurar o abastecimento de matérias-primas, reduzir custos e aumentar a eficiência produtiva. Muitos industriais combinavam, no mesmo universo empresarial, unidades dedicadas à transformação dos recursos produtivos essenciais ao fabrico de sabão.

O percurso de José Júlio Bouças ilustra esta lógica: após obter licença (1869) para instalar uma saboaria na Rua do Bonjardim, estabelece, no ano seguinte, uma fábrica de sebo, em Paranhos, garantindo o fornecimento direto de matéria-prima. De modo semelhante, José Bento do Lago Rodrigues integra uma saboaria na sua fábrica de velas, aproveitando o sebo já produzido, evidenciando práticas de reaproveitamento e racionalização produtiva.

A mesma lógica observa-se na produção de óleos, no caso de Joaquim Silvano, cuja fábrica se destinava ao tratamento de matérias-primas para a indústria saboeira, em articulação com a saboaria contígua da família.

A saboaria a vapor “Progresso”, de Domingos Alexandrino Ferreira da Silva, evidencia, por seu turno, a dependência destas cadeias produtivas de fornecimentos externos, nomeadamente a soda. A correspondência com a Companhia de Soda Portuguesa revela constrangimentos como atrasos e problemas de qualidade, que podiam comprometer a produção, demonstrando a vulnerabilidade de um setor fortemente dependente da regularidade dos circuitos de abastecimento

 

18 - AUTO DE REQUERIMENTO RELATIVO A FÁBRICA DE VELAS DE SEBO DE JOSÉ BENTO LAGO RODRIGUES (1869) 

Processo relativo ao pedido de licença para o estabelecimento de uma unidade de fabrico de velas de sebo situada na Rua do Matadouro Público, freguesia de Paranhos (Porto), numa zona atualmente integrada na área da Asprela e da VCI.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00369, Capa
Fundo: Governo Civil do Porto

 

19 - AUTOS CÍVEIS DE IMPETRAÇÃO DE LICENÇA DA FÁBRICA DE ÓLEOS COM MOTOR A VAPOR DE MARTINS IRMÃOS & OLIVEIRA (1894–1895) 

Processo relativo ao pedido de licença para o estabelecimento de uma unidade de produção de óleos situada na Viela do Aleixo, freguesia de Lordelo do Ouro (Porto). O requerimento foi subscrito pelo sócio Joaquim Silvano Filho.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00665, Capa
Fundo: Governo Civil do Porto

 

20 - CORRESPONDÊNCIA DA SABOARIA A VAPOR “PROGRESSO” (1923) 

Correspondência relativa à perda de qualidade da soda adquirida e ao impacto dessa alteração na produção de sabão.

PT/ADPRT/EMP/JA-07/003/0014, fls. 4 e 9
Fundo: Casa Bancária José Augusto Dias, Filho e Companhia, Lda.

 
 
Formas de Organização: Sociedades
 

A segunda metade do século XIX assistiu a uma crescente formalização jurídica da atividade empresarial em Portugal. A compilação de normas mercantis de 1833, posteriormente reformulada pelo Código Comercial de 1888, estabeleceu um enquadramento mais estruturado para as sociedades comerciais, incluindo formas como as sociedades em nome coletivo, em comandita e anónimas. Já no início do século XX, a introdução das sociedades por quotas veio consolidar este processo de modernização do direito societário.

Neste contexto, o setor saboeiro conheceu iniciativas de reorganização empresarial baseadas na associação de capitais e na constituição de companhias. Destaca-se a Companhia de Saboarias do Porto, fundada em 1866 sob a forma de sociedade em comandita, que reuniu vários industriais num projeto comum de concentração produtiva.

O modelo adotado assentava na integração dos capitais previamente investidos nas fábricas, convertidos em participações societárias, bem como na incorporação de matérias-primas e equipamentos segundo critérios definidos. A gestão técnica e administrativa era centralizada, sendo acompanhada por mecanismos de fiscalização interna, como a apresentação de balanços e a realização de assembleias de sócios.

Estas estruturas evidenciam uma crescente complexificação organizativa, traduzindo-se na procura de maior coordenação produtiva, controlo financeiro e eficiência na gestão industrial.

- Fábricas de Sabão: Entre Higiene e Insalubridade (antes da legenda 23)

As saboarias do século XIX eram marcadas por uma contradição evidente: embora produzissem sabão, um produto associado à higiene e à limpeza, funcionavam frequentemente em condições insalubres. A utilização de matérias-primas como óleo de peixe e, mais tarde, sebo animal gerava odores intensos, agravados pela emissão de fumos e pela produção de resíduos lamacentos, tornando esta atividade industrial altamente poluente.

De acordo com o Decreto de 21 de outubro de 1863, o licenciamento de qualquer indústria deveria ser submetido ao delegado do Conselho de Saúde do distrito, a quem competia avaliar a conveniência da concessão ou recusa da licença, de acordo com os parâmetros sanitários. As exigências impostas às saboarias foram variando ao longo do tempo, refletindo tanto a evolução do conhecimento científico como os problemas concretos associados à sua atividade.

Todavia, por mais condições que os delegados de saúde estipulassem para salvaguardar a saúde pública, as fábricas de sabão tornaram-se um foco de insalubridade. A emissão de licenças para o funcionamento destas indústrias era um processo que, frequentemente, estava na origem de tensões sociais, oposições e abaixo-assinados das populações circunvizinhas do estabelecimento, devido aos inconvenientes com o fumo, mau cheiro, despejo de resíduos lamacentos e ainda contaminação dos poços ou nascentes com águas potáveis.

 

21 - CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADE DA COMPANHIA DE SABOARIA DO PORTO (1867) 

Documento relativo às transações e acordos celebrados entre a Companhia de Saboaria do Porto e José Júlio Bouças, em dezembro de 1867.

PT/ADPRT/NOT/CNPRT04/001/4705/00269, fls. 93 e 94v
Fundo: 4.º Cartório Notarial do Porto

 21 PT ADPRT NOT CNPRT04 001 4705 00269

22 - ESCRITURA DE CONSTITUIÇÃO DA COMPANHIA DE SABOARIA DO PORTO (1866) 

Documento relativo à constituição da sociedade em comandita celebrada entre o Barão do Freixo, Joaquim Afonso Velado, João Francisco de Morais e João Correia de Sousa Montenegro.

PT/ADPRT/NOT/CNPRT04/001/4702/00250, fls. 100v e 101v
Fundo: 4.º Cartório Notarial do Porto

 

23 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO E TINTURARIA DE ANTÓNIO COSTA BARREIRO (1869–1870) 

Representação da organização da unidade industrial instalada na Rua do Paraíso, freguesia de Santo Ildefonso (Porto). O desenho detalha o poço, as caldeiras destinadas ao fabrico do sabão e tinturaria, bem como o sistema de escoamento de águas residuais para um poço, cuja construção foi determinada pelo delegado de saúde João Vieira Pinto.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00014, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 22 PT ADPRT NOT CNPRT04 001 4702 00250 101

24 - TERMO DE VISITA À FÁBRICA DE SABÃO DE JOAQUIM MARTINS DE ALMEIDA (1913) 

Documento elaborado pelo subdelegado de saúde, João Ferreira Guimarães, no âmbito do processo de licenciamento da fábrica situada no lugar do Outeiro, freguesia de Vilar do Paraíso (Vila Nova de Gaia). O parecer, que era obrigatório no processo de concessão da licença, estabelece condições destinadas à salvaguarda da salubridade pública e à redução dos impactos ambientais da atividade industrial.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00673, fls. 10v–11
Fundo: Governo Civil do Porto

 

25 - DEFESA DA FÁBRICA DE SABÃO DE JOSÉ AUGUSTO MENDES PEREIRA (1871–1873) 

Detalhe da resposta apresentada por José Augusto Mendes Pereira contra as queixas da população devido ao fumo e às águas poluentes provenientes da sua fábrica situada na Rua da Rainha, n.º 362, atual Rua Antero de Quental, freguesia de Cedofeita (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00641, fls. 13v e 28v
Fundo: Governo Civil do Porto

 

 

13b - PETIÇÃO CONTRA A FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO SOARES PINTO (1879–1880) 

Abaixo-assinado de moradores de Vila Nova de Gaia, contestando a instalação da unidade industrial situada na Rua do Padrão, freguesia de Mafamude, alegando riscos de poluição das águas.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00649, fls. 11 a 12
Fundo: Governo Civil do Porto

 

13b fl 11v13b fl 11v

 

O Problema da Contaminação das Águas

O receio da contaminação das águas — rios, nascentes ou poços particulares —, cuja qualidade era essencial à vida, à saúde e a diversas atividades humanas, constituía a principal razão invocada nas oposições às fábricas de sabão. Nesse sentido, os abaixo-assinados configuram importantes testemunhos da insalubridade e dos impactos ambientais e sanitários causados por estas unidades fabris.

O desleixo de alguns industriais, aliado ao facto de o saneamento ser praticamente inexistente, criou um ambiente insalubre em torno de um produto elevado a símbolo de limpeza e higiene.

Na grande maioria dos processos, os delegados de saúde emitiam pareceres favoráveis às licenças requeridas, limitando-se a estipular condições para atenuar os inconvenientes da fábrica em matéria de salubridade, de acordo com o disposto no Decreto de 21 de outubro de 1863. Todavia, houve casos excecionais em que as licenças para saboarias foram negadas pelo Governador Civil. Foi o caso da licença requerida por Joaquim de Abreu Guerra, a 2 de maio de 1889, para estabelecer uma “pequena fábrica de sabão” no armazém da casa n.º 14 a 18, na Rua do Amial, freguesia de Paranhos.

Num caso raro de intervenção e de oposição à concessão da licença, não por parte da população, mas por parte da Câmara Municipal do Porto, invoca-se a preocupação com a infiltração das águas sujas da fábrica no solo que “irão danificar as águas do rico manancial que o Município ali possuiu [o manancial de Arca d’Água] e que abastece grande número de fontes da cidade” (1889). A licença acabaria por ser negada pelo Governador Civil do Porto no mesmo ano.

26 - RECLAMAÇÃO CONTRA A FÁBRICA DE SABÃO DE FRANCISCO GONÇALVES CORTES (1908–1910) 

Pormenor de uma reclamação apresentada ao Governo Civil do Porto relativa aos prejuízos materiais e ambientais causados pela fábrica de sabão de Francisco Gonçalves Cortes, situada na Rua de General Torres, n.º 356, em Vila Nova de Gaia. Ao lado, um ofício da Câmara Municipal de Gaia, alerta para o risco de contaminação do “Rio Martinho”, curso de água que abastecia várias fontes públicas, devido aos resíduos provenientes da saboaria.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00676, Planta e fls. 13v e 17
Fundo: Governo Civil do Porto

 

27 - PLANTA E PARECERES SOBRE A FÁBRICA DE SABÃO DE JOAQUIM DE ABREU GUERRA (1889–1890) 

Documentos relativos à fábrica de sabão instalada num armazém situado nos n.os 14 a 18 da Rua do Amial, freguesia de Paranhos (Porto). O processo contém dois pareceres dirigidos ao Governo Civil do Porto — um da Câmara Municipal do Porto e outro da Direção das Obras Públicas — nos quais é solicitada a suspensão da licença da unidade industrial, devido ao risco de contaminação das águas do Manancial de Arca d’Água pelos resíduos produzidos pela fábrica.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00659, Planta, fls. 18 e 19
Fundo: Governo Civil do Porto

 
 

Espaços que o Tempo Lavou 

O percurso pela história das saboarias também nos permite revisitar espaços da cidade do Porto que há muito deixaram de existir na paisagem urbana portuense, como foi o caso da Rua da Biquinha.

No contexto da ameaça de uma nova epidemia de cólera na cidade do Porto, que impulsionou, na década de 1850, medidas de limpeza e remoção de imundices no espaço urbano, a zona da Biquinha foi várias vezes referida pelas autoridades administrativas e sanitárias como um grande foco de insalubridade que se impunha sanear.

Foi nesta rua que, a 29 de dezembro de 1871, Manuel Borges Landim requereu uma licença para instalar uma fábrica de sabão, na casa n.º 38, que era simultaneamente a sua habitação. Este proprietário acabaria por desistir da licença no ano seguinte, uma vez que o terreno onde se situaria a fábrica seria adquirido pela Câmara Municipal do Porto para a abertura da atual Rua Mouzinho da Silveira, que inicialmente esteve para se chamar Rua da Biquinha.

A abertura desta nova artéria, que ligava a zona ribeirinha ao centro da cidade, determinou também o encanamento definitivo do Rio da Vila, considerado um esgoto a céu aberto desde tempos medievais. Foi encanado por um aqueduto subterrâneo, parte em 1763 e depois em 1875, desaparecendo assim da paisagem urbana portuense.

Nesta mostra documental, foi possível encontrar vestígios deste Rio da Vila no processo de licenciamento de uma fábrica de sabão de Serafim Pinto Resende, a funcionar na Rua da Ponte Nova n.º 43, freguesia da Sé. Na planta desta unidade industrial, observa-se o traçado do rio, bem como o cano de esgoto da saboaria que nele desaguava.

 

28 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE SERAFIM PINTO RESENDE (1868) 

Ilustra a fábrica “Saboaria Central”, situada na Rua da Banharia, freguesia da Sé (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00620, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 28 PT ADPRT AC GCPRT J D 180 00620

29 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE MANUEL BORGES LANDIM (1871–1872) 

Apresenta a fábrica instalada na antiga Rua da Biquinha, freguesia da Sé (Porto), extinta aquando da abertura da Rua Mouzinho da Silveira, em 1875. Os fólios anexos incluem declarações favoráveis e desfavoráveis à permanência da unidade industrial naquele local.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00637, Planta, fls. 17v e 18
Fundo: Governo Civil do Porto

29 PT ADPRT C 9 13 2 621 006829 PT ADPRT C 9 13 2 621 0069

 

30 - PLANTA DA FÁBRICA DE SABÃO DE SERAFIM PINTO RESENDE (1866) 

Representa a fábrica que se localizava na Rua da Ponte Nova n.º 43, freguesia da Sé (Porto). Além das confrontações, é possível ver o Rio da Vila e o sistema de escoamento de águas residuais para este curso de água. Considerado um esgoto a céu aberto desde tempos medievais, o rio foi encanado definitivamente por um aqueduto subterrâneo em 1875, aquando da abertura da Rua Mouzinho da Silveira.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00618, Planta
Fundo: Governo Civil do Porto

 

 

LPPS

O sabão foi protagonista assíduo nas campanhas sobre higiene e saúde pública promovidas pela Liga Portuguesa de Profilaxia Social (LPPS) ao longo do século XX. O ADP preserva o acervo documental desta importante instituição portuense, referência na promoção e defesa da saúde e da educação higiénica da população na primeira metade do século XX.

A LPPS foi fundada na cidade do Porto, em 1924, por iniciativa de três jovens médicos: António Emídio de Magalhães, Gil da Costa e Veiga Pires.

Ao longo da primeira metade do século XX, a instituição interveio não apenas sobre os problemas de saúde pública mais prementes na cidade do Porto, como a sífilis, a tuberculose, o cancro ou a lepra, mas também se destacou no combate a problemas sociais relevantes, como a pobreza, a mendicidade, o abandono infantil, a saúde mental, os direitos laborais, entre outras áreas de intervenção.
A partir de uma perspetiva higienista, ancorada na medicina social, mas também humanitária e patriótica, a LPPS teve um destacado papel de intervenção médico-social em tempo de grandes lacunas no domínio da saúde pública em Portugal.
As questões relacionadas com a higiene e a saúde pública foram sempre centrais para a LPPS, numa época de graves carências ao nível da salubridade.
Neste âmbito, o sabão assumia uma importância acrescida, ao qual a LPPS fazia referência de forma recorrente, com o objetivo de promover um uso tão generalizado e eficaz quanto possível.
Os cartazes, com ou sem imagem, nacionais ou estrangeiros, foram também um dos veículos de comunicação adotados pela LPPS, para mostrar a importância da higiene individual.

 

 

 

Fontes Documentais para a Reconstituição de Trajetórias Familiares e Industriais 

Com base nos registos paroquiais e civis, é possível reconstituir percursos familiares ao longo de várias gerações. Estes registos, à guarda do Arquivo Distrital do Porto, constituem fontes fundamentais não só para a construção de árvores genealógicas, mas também para diversos campos da investigação histórica.

No âmbito da história da família, permitem compreender relações de parentesco, mobilidade social, padrões de casamento, transmissão de apelidos e profissões, bem como redes de sociabilidade, como a escolha de padrinhos, entre outros aspetos (Vidal, 2004, p.130). Como referia o padre Avelino de Jesus da Costa, é neles que “se têm de fundamentar, em grande parte, as monografias locais e até obras de maior amplitude e projeção” (Costa, 1979-1983, p. 541).

A par destas fontes, os livros e processos de passaportes, emitidos pelos Governos Civis de cada distrito, constituem igualmente fontes essenciais para o estudo da mobilidade geográfica das populações nos séculos XIX e XX, nomeadamente no que respeita à emigração e às migrações internas, tanto de portugueses como de estrangeiros.

Neste contexto, o setor da saboaria não constitui exceção. Tal como outros ramos industriais, identificam-se grupos familiares que se estruturaram ao longo do tempo, dando, em alguns casos, origem a empresas duradouras. Algumas destas fábricas históricas mantiveram-se em laboração até à década de 1970, como a Sociedade de Saboaria de Rego Lameiro, a Sociedade de Saboaria do Bolhão, a Ach. Brito & C.ª e a Claus & Schweder.

 

38 - PROCESSO DE LICENCIAMENTO DA FÁBRICA DE FERDINAND CLAUS (1891–1892) 

Documentação relativa ao pedido de licença para a instalação de uma unidade industrial de sabão, sabonetes e outros produtos químicos situada na Rua de Serpa Pinto, freguesia de Cedofeita (Porto).

PT/ADPRT/AC/GCPRT/J-D/180/00664, Capa
Fundo: Governo Civil do Porto

 

39 - ESCRITURA DE SOCIEDADE COMERCIAL ENTRE FERDINAND CLAUS E ACH. BRITO (1908) 

Contrato de sociedade outorgado entre Ferdinand Claus, Achiles Alves de Brito e Willy Thessen, que estabelece a propriedade exclusiva das fórmulas industriais da firma fundada a 30 de dezembro de 1908.

PT/ADPRT/NOT/CNPRT07/001/0814/01339, fls. 87–87v
Fundo: 7.º Cartório Notarial do Porto

 

40 - REGISTO DE BATISMO DE ACHILES ALVES DE BRITO (1879) 

Assento de batismo de Achiles Alves de Brito, nascido na freguesia e concelho de São Salvador de Matosinhos a 18 de novembro de 1879. O documento inclui o respetivo averbamento de falecimento, ocorrido em 1944.

PT/ADPRT/PRQ/PMTS06/001/0048, fl. 61v, Assento n.º 120
Fundo: Paróquia de Matosinhos

 

41 - TERMO DE IDENTIDADE E RESIDÊNCIA DE ACHILES ALVES DE BRITO 

Documento administrativo integrante do processo de pedido de passaporte para deslocação a Espanha, lavrado no Governo Civil do Porto em 8 de agosto de 1919.

PT/ADPRT/AC/GCPRT/JE/099/0501, Processo de Passaporte n.º 1761, livro n.º 3421
Fundo: Governo Civil do Porto

41 PT ADPRT AC GCPRT J E 099 0501

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